Farinha de mandioca e resistência cultural

 

Farinha de mandioca e resistência cultural

Nas nossas atividades, conversas e visitas à RDS do Tupé, desde 2002, verificamos que o cultivo da mandioca, como em toda a Amazônia, ainda é um dos cultivos tradicionais predominantes, mesmo nessas comunidades com forte influência de um centro urbano importante como Manaus.

Quando discutíamos com os comunitários o que fazer pra gerar renda, e assim talvez melhorar a situação em que essas populações vivem, sempre buscávamos algo que fosse do domínio dessas populações. O cultivo da mandioca sempre foi uma atividade comum. Um pouco mais forte em uma comunidade, não tanto em outras, mas essa atividade sempre apareceu como uma possibilidade para gerar renda. Hoje sabemos, pela vivência, que gerar renda talvez não seja o único caminho. Muitas outras atividades tradicionais ainda mantidas por essas populações parecem ser mais ou tão importantes quanto a geração de renda, como fator de melhoria da qualidade de vida, objeto de inúmeras iniciativas bem intencionadas pela Amazônia afora.

De tanto ver isso e de ver a sugestão da atividade como geradora de renda, comecei, após termos feitos alguns estudos sobre o que a floresta poderia “render” a essas populações se as municiássemos com informações e procedimentos que as permitissem usar estes recursos num perspectiva de longo prazo. Além disso, informações de outros trabalhos nessa linha nos colocaram a dúvida. Será que um hectare de mandioca rende mais que um hectare de floresta? Passei até a propor aposta na brincadeira com os comunitários, dizendo que um dia iríamos fazer uma pesquisa para provar quem tinha razão. Isso porque invariavelmente os comunitários sempre afirmavam que plantar mandioca pra fazer farinha renderia mais, portanto, poderia ser uma atividade geradora de renda.

Tivemos a oportunidade de avançar um pouco mais nesta questão quando um estudante (Ramon Donatti) decidiu, com nossa “ajuda”, avaliar se plantar mandioca pra produzir farinha era uma atividade lucrativa. Usando para isso os comunitários do Julião que ainda plantam mandioca.

A proposta foi participar do dia a dia desses comunitários, hoje não são mais famílias, e acompanhar todo o processo desde o momento da derrubada, queimada e todas as outras etapas até chegar a produção farinha, propriamente dita. Ir anotando as horas de trabalho dispendidas em todo o processo, quanto de dinheiro cada um havia gasto e depois comparar isso com o quanto se obteve ou seria obtido com a venda da farinha produzida.

Os resultados obtidos nessa comunidade confirmaram algumas suspeitas. Ninguém estava lucrando com a atividade na escala dos roçados abertos nesse ano do estudo e, com os procedimentos adotados nessa ocasião, que são em geral os mesmos adotados pela grande maioria dos comunitários da RDS e da Amazônia que plantam mandioca. Lógico que existem exceções, principalmente ligadas ao tamanho dos roçados e de onde vem a força de trabalho na atividade.

Mas então nos perguntamos, se ninguém está lucrando com isso então porque plantam mandioca. Perguntamos isso aos comunitários. Alguns responderam que era porque gostavam, que era bom fazer isso, que se sentiam bem fazendo isso, que se lembravam do tempo em que moravam no interior, geralmente na infância e juventude. Curioso! É, mas muito interessante. Quando comecei a pensar em como era a atividade de plantar mandioca no interior de Santarém, onde vivi minha infância e até hoje tenho familiares.

Bom, tudo era como se fosse uma festa, todos participavam, até mesmo as crianças. Era uma atividade tipicamente familiar, exceto algumas fases do processo que eram realizadas em mutirão, como a derrubada e o plantio, mas a queima, limpeza (encoivarar) para o plantio, capinas após plantio, colheita e beneficiamento da mandioca (descascar, ralar, retirar o tucupi e a tapioca, peneirar e torrar) eram atividades familiares. Em quase todas, as crianças participavam, mas não podíamos torrar farinha. Era perigoso ficar perto do forno e do fogo!

Na minha região, a época de colheira da mandioca era quase sempre ligada às festas juninas, onde nas quermesses podíamos apreciar uma série de iguarias feitas de mandioca ou de seus subprodutos. Era beiju, pé-de-moleque, beiju com castanha ou coco, beiju cica (um beiju torrado), bolo de macaxeira, e o tarubá, que era produzido seguindo um ritual. Caso algo fosse feito de maneira diferente do ritual, certamente algo sairia errado, a massa do tarubá poderia não ser tão doce, poderia azedar etc. Então tudo era seguido à risca. Ah, e a farinha era, em geral, toda para o consumo da família, quando muito alguns quilos eram separados para trocar com algum gênero na cidade, como: querosene, sal, açúcar, sabão, óleo etc. Não sobrava pra vender!

Depois de relembrar isso tudo, fiquei pensando na situação das pessoas que ainda hoje plantam mandioca na RDS do Tupé e, especificamente na comunidade do Julião, onde o estudo foi feito.

Então é isso! Ainda fazem farinha na busca de uma reaproximação com a natureza rural donde viveram. Esta ligação foi perdida na passagem dessas pessoas pelos centros urbanos, Manaus principalmente, onde hoje vivem a maior parte de suas famílias. Em geral, essas pessoas moram no Julião sozinhas ou o casal, na busca de um retorno a um lugar melhor do que a cidade por onde passaram, buscam sossego, paz, liberdade par ir e vir, contato com atividades prazerosas realizadas no passado. Enfim, buscam a felicidade! Viva o senador Cristóvão e sua incompreendida emenda.

Então o plantio da mandioca e a fabricação da farinha é muito mais uma atividade de manutenção da cultura, festas, tradições, lembranças. Portanto, na escala que os roçados são feitos, a atividade não se constitui em algo que possa gerar renda, mas nem por isso desimportante. Muito ao contrário, torna-se uma atividade de resistência, de ligação com a terra e a cultura tradicionais.

Uma das explicações do porque a atividade é deficitária é também pelo fato que já não é mais uma atividade familiar, onde todos participam. Hoje muitos tem que pagar para que outros realizem atividade antes realizadas pelas próprias famílias. Além disso, a confiança no trabalho em grupo, os puxiruns, ajuris dificilmente são realizados. O individualismo passou a ser a prática comum. Além disso, a ilusão do lucro é constante. Os agricultores não anotam o que gastam, esquecem do quanto gastaram e do quanto trabalharam cada dia até produzir a farinha. Quando chega este momento, que vendem a farinha, tem a ilusão que estão ganhando dinheiro.

Mas, o plantio de mandioca, a fabricação da farinha e a retirada e uso dos seus subprodutos é uma atividade cultural importante e o seu resgate como atividade grupal pode ser importante para resgatar a dignidade dessas populações. Aliado a isso, a farinha é sem dúvida, um importante ítem da dieta regional.

Os resultados dessa pesquisa estão sendo apresentados no VIII Congresso Latinoamericano de Sociologia Rural, que está sendo realizado em Porto de Galinhas (15-19/Nov/2010), Pernambuco e foi aceito para ser publicado nos anais desse congresso.

 

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